Tuesday, September 11, 2007

SETEMBRO, 11

Há 6 anos, antes de sair de casa ali entre a Alameda e o Areeiro, vi um avião a embater numa das Torres e achei triste dramático e irreal, desliguei a TV, peguei nas malas e fui para o aeroporto apanhar o avião para Londres e depois para Sidney e depois para Darwin e depois para Dili. Era na altura uma viagem em direcção à recuperação da sanidade, sem nunca sonhar ou imaginar o fim que iria ter - muito feliz, poderia dizer agora! Fiquei quase 3h dentro do avião sem perceber muito bem o impacto das imagens que deixei no monitor da tv, lá em casa, onde tinha ficado também uma outra vida para trás sem que eu tivesse noção disso ou mesmo oportunidade de me despedir dela. 1,5h depois um Russo alcoolizado é retirado do lugar atrás do meu e arrastado até à porta do avião por dois policias enquanto com voz enrolada ía dizendo"yeah I'm a terrorist,I´m a fucking terrorist". E houve gente que desistiu e saiu. E eu pensei fazer o mesmo porque há num limite para os amendoins salgados que se podem comer enquanto se espera. Mas o piloto convenceu-me a ficar.
E lá se foi para Londres.
Londres era o caos. Com todos os vôos atrasados e todas as bagagens, sacos, saquinhos saquetas a serem revistados. Lembro-me do Paquistanês de turbante na cabeça que me revistou o saquinho com aquelas coisas que as meninas usam em dias especiais do mês e de eu lhe dizer que pronto, aquilo era um bocado embaroçoso e ele reponder que não poderia ser mais do que para ele e senti-o ruborizado por trás das barbas. Mais tarde vi-o a conduzir o autocarro que nos levou ao avião. Acho que toda a gente naquele aeroporto fez um pouco de tudo naquele dia.

E lá se foi para Sidney. Mais de 5 horas de atraso.
E em Sidney as ligações perdidas e as malas também. Recebe-se um estojozinho com um penso higiénico, 3 toucas de banho, uma escova de dentes, uns calções e uma tshirt brancas da Quantas e $100 dolares australianos que na realidade parecem dinheiro de brincar porque têm pássaros e cores e zonas transparentes. E porque não querem mais despesas para compensar vôos perdidos, enfiam-nos em aviões em passo de corrida e subitamente vejo-me a caminho de um destino que não era o meu com um jornal debaixo do braço, onde ha fotos de corpos mutilados e edificios destruidos e sentada no chão em Alice Springs, com um aborigene descalço a caminhar à minha frente - que eu penso que é pago para dar um ar exótico ás instalações - descubro que o mundo mudou enquanto eu voava em classe turistica.

Foram quase duas semanas, se não me engano, em que eu e mais duas pessoas, vestimos diariamente todos os dias - como se diz na RTP, os calções brancos e a tshirt da Quantas, fazendo-nos parecer membros de uma seita desportista. Depois chegaram as malas e toda a minha roupa tingiu por causa da humidade. A T-shirt perdura e livrei-me dela simbolicamente antes de vir de Timor em Julho.
O terror também perdura. E depois de Bali, e de Madrid e de Londres, sabemos que estamos frageis e expostos em qualquer local do mundo. Mas dessa noção de fragilidade tem que nascer qualquer coisa. Mas a única coisa que nasceu foi um desejo supostamente justificado de manipulação, ingerência e total desrespeito por direitos básicos.
E isto é muito mais incómodo do que viajar em turistica enquanto o mundo muda.


4 Comments:

Anonymous mmux said...

pois é

9/11/2007 4:50 pm  
Blogger Brikebrok said...

está muito bem descrito, como a vida corre,"enquanto o mundo muda" e tanto ...

9/14/2007 10:04 am  
Anonymous Sonia Luisa said...

Ha seis anos atras, em Sheffield na Inglaterra, depois de ter telefonado a minha irma, em Portugal, a desejar-lhe um feliz aniversario e o costumeiro beijinho de parabens, liguei a televisao para ver as noticias da hora do almoco enquanto me vestia para ir a minha consulta dos seis meses de gravidez no consultorio da minha medica (a cerca de dez minutos a pe de minha casa); as imagens mostravam um arranha-ceus em chamas e, enquanto eu pensava "que horror, coitados...!", um segundo foco de incendio comecava no edificio ao lado. Desliguei a televisao e apressei-me a sair de casa para a minha consulta enquanto digeria as imagens que tinha presenciado.
Na recepcao do consultorio medico, a boa maneira inglesa, pouco se falou no assunto; a minha enfermeira parteira disse-me quase num sussurro "acham que foi um ataque terrorista...".
O mundo tinha mudado e eu quase nao tinha dado por isso.

9/14/2007 10:07 pm  
Anonymous Anonymous said...

Alloo, eu fiz parte da "seita desportista"! Gostei de perceber que alguém partilhou os mesmos momentos que eu, contudo, à distância, porque só se apresentou ... em Sidney! Devo dizer que foste e és muito bem vinda, porque há mudanças muito boas - Gonçalo

9/19/2007 10:04 pm  

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