Friday, September 28, 2007

NESTING

O mais difícil quando se regressa a “casa” é a perda de um espaço próprio.
Com a perda de um espaço próprio vem a perda da expressão da identidade. E daí surge uma tristeza que pode assumir nomes de teor mais científico.
Porque um espaço revela cada pedaço do que nós somos, e relembra-nos isso mesmo. A casa a que aprendemos a chamar casa deixa de o ser quando crescemos e saímos dela e passa a ser a casa deles, onde eventualmente ainda restará um quarto intacto ou não, com memórias boas ou más conforme a capacidade que cada um teve para lidar com a adolescência.

Lembro-me de cada detalhe das (minhas) casas onde vivi. Da forma como a luz incidia nesta ou naquela janela. De qual o canto ou a cadeira que escolhia para ler, ou para beber, ou para conversar, ou para usar o telefone.

De que cor eram as chávenas que usava para o chá, qual era o prato que normalmente fazia quando recebia amigos. Que flores tinha nos vasos ou no jardim. Que animal adormecia enroscado no meu colo ou nos meus pés. Quais eram os cheiros.
A de Alfama cheirava-me a canela e xixi de cão ainda a ser treinado. A da Alameda a blueberry e torradas. A de Moçambique a côco acabado de ralar e cera do chão amarela com lustro puxado à mão. A de Dili ao sândalo entremeado nas cortinas. A de Baucau a maçãs…
E em todas elas havia uma coisa em comum. A sensação de bem-estar que me invadia ao entrar, independentemente do nível de pó ou louça suja acumulada. E sinto que não consigo viver sem isso

9 Comments:

Blogger Chelsea said...

hi! Thank you for the comments! I know I can do it. I've lost about 120 lbs before (and gained back a little more than half of it) and kept it off for a year. Once I got married I got lazy. I need to just put my feet on the pavement again and start walking :)

9/28/2007 4:01 pm  
Anonymous Cristina said...

Acredito que um dia consigas recordar do cheiro da tua casa...em terras lusitanas!Como alguém um dia imortalizou:"Numa casa portuguesa fica bem..." e imagino-te de avental nazareno por cima de sete saias.LOL
Jocas

9/28/2007 5:18 pm  
Blogger Ana Cardoso said...

Coisas que marcam, sem dúvida. Alguém que já esteve à trinta anos disse-me o seguinte ...."Timor nos deixa marcados com um estranho perfume que nunca nos abandona ao longo da vida"...
Esse perfume está nas casas, pessoas....

9/29/2007 7:16 am  
Anonymous Anonymous said...

Não és a única sofredora, … há mais estrelas no céu!

9/30/2007 11:44 am  
Blogger Migas said...

Gosto muito da forma como escreve...Os cheiros deixam concerteza, boas recordações...Lembro-me por exemplo, do cheiro da sopa, quando era miúda e passava o dia no infantário! O cheiro não tem tempo! :o)

Parabéns pelo blog!

10/01/2007 10:58 pm  
Anonymous Céu said...

Que sortalhuda és, por teres uma tão grande riqueza de cores, de cheiros, de pedaços de luz guardados dentro da alma! Imagina todos os outros registos lindos que ainda te esperam, pela vida fora!...
Não há nada como "o nosso canto"... mas esse, fica cá dentro, não é lá fora... por isso é eterno!
Mil beijos.

10/02/2007 3:26 pm  
Anonymous isabelinha said...

... e a de Alfama também cheirou um só dia a ameijoas apanhadas e trazidas de cacilheiro do Montijo, e confeccionadas por alguém de quem gostamos muitissimo... lembras-te?

10/12/2007 9:35 pm  
Anonymous Anonymous said...

Alloo, eu vou ser mau, mas não gosto da "perca". Uma sugestão: troca por perda! bjs - GT

10/29/2007 4:44 pm  
Blogger carla alexandra vendinha said...

Isabelinha: então não lembro! Ficaram esquecidas em cima da mesa e eu no dia seguinte, muito garganeira, dei umas trincadinhas e acabei com uma intoxicação alimentar. É estranho pensar que a Sandra já não existe , não é? Não deviamos ter que nos despedir dos amigos...

Gonçalo: obrigada! perca é peixe! mas eu quando escrevo fico sempre na duvida... Cahma-lhe sindrome de Linda de Suza. Ou sindroma?

10/29/2007 6:38 pm  

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