A METTER OF ESTIME. SELF- ESTIME!

Mas o bolo é cortado. Debicado elegantemente e o restante da fatia pousado, assim como quem não quer a coisa, embrulhado no guardanapo. A G. foi comigo e exigiu a presença da então ama (que entretanto já fugiu cá de casa). Passou a cerimónia ao colo dela. Arrastou-a por todo o lado. Feliz. A certa altura repara no bolo e fixa os olhos nele. Foi amor à primeira vista. Uma das senhoras presentes (Timorense) segue-lhe o olhar e pergunta "Queres bolo?." E pega-lhe na mão. A ama segue-a. E eu, sem saber bem porquê resolvo ir atrás também. Ao chegar perto da mesa vejo um pedaço amassado de bolo já debicado por um dos Internacionais convidados, a ser entregue à minha filha. E berro: "Não!" Outra mulher rapidamente se apercebe do engano. Aquela menina era minha e não filha da ama. E com uma subtileza admirável, retira-lhe o bolo da mão e substitui-o por uma fatia nova enquanto tenta fazer conversa de ocasião comigo em Fataluk!! E eu fico ali quieta, zangada, gelada. Triste. Acima de tudo triste. A pensar: que raios de mulheres são estas que não julgam as suas próprias crianças dignas, em dia de festa, de uma fatia limpa e intacta de bolo? Que raios de mulheres são estas que tendo 12kg de um bolo seco, intragável, que ninguém vai conseguir comer, pegam numa criança pela mão e lhe entregam o resto amassado e rejeitado deixado por um estrangeiro de pele leitosa e mãos transpiradas? Que raios de mulheres são estas?
Fui-me embora. Não almocei…
Episodio 2 - Estaciono o carro na beira da estrada. Falta ainda uma hora de viagem para chegarmos a casa. Mas este é o sítio onde quer se tenha sede quer não, eu obrigatoriamente paro - habituada aos rituais do A., que aqui sempre se benze e molha a cabeça na nascente vigiada pelo Santo António. O homem tem tanta fé no Santo, que eu, em desespero, desencantei uma medalha em Dili, supostamente benzida em Fátima (pelo menos paga como tal) para ver se o dito o protege de tanta asneira que faz no trabalho.
Eles aproximam-se em grupo; apercebem-se que há uma criança no carro. Vão-se chegando, vão-se chegando e param subitamente, também em grupo, boquiabertos, quando se apercebem que a menina a dormir na cadeirinha é igual a eles e murmuram: "Timoruan, Timoruan" , como se de lepra se tratasse! E ficam ali boquiabertos. Confusos. Profundamente confusos…
1 Comments:
Ola Alexandra,
As suas palavras fizeram-me vir as lagrimas aos olhos; fiquei triste...pelas criancas e pelos adultos. E lembrei-me de outras situacoes em que o culto da "diferenca institucionalizada" esta sempre tao presente, mesmo na nossa terra.
PS- Estive a ouvir noticias horriveis na RTP Internacional (eu estou na Africa do Sul), espero que esteja tudo bem convosco.
Beijos,
Sonia Luisa
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