Wednesday, February 07, 2007

DESAMORES E OUTRAS COISAS

A G. vomita vomita e diz que não gosta dos sabores dos cereais e eu insisto com ela mas quando olho para a taça vejo-os a boiar em leite azedo. A A. deu-lhe o leite estragado e eu sei que não foi um acidente. Se ainda existe comida e mais ninguém a vai comer, dá-se à criança. Explicar o cuidado que se deve ter com alguém de 4 anos não faz sentido. O tratamento que é dado oscila entre a total veneração - sempre ao colo, alguém sempre com um prato na mão a dar comida na boca, obesas da papa mas desnutridas – à negligência – o andar sempre nú ou com apenas uma blusinha, sempre descalços ao lado dos pais relativamente bem apresentados, uma dieta de caldo de arroz pela manhã e arroz uma a duas vezes por dia com uma quantidade mínima de vegetais muito raramente acompanhada de carne ou peixe num local que é uma ilha.
No quarto da G. encontro invariavelmente a botija de gás vazia, os insecticidas, os detergentes, as vassouras, os baldes. É um quarto em que a A. despeja tudo o que deve ser armazenado. E é-lhe totalmente incompreensível porque tem uma criança a divisão maior quando essa divisão não serve para mais nada. Porque tem uma cama para ela? Porque lhe cozinho refeições quando não há mais ninguém para comer. Porque lhe lavo o prato em água fervida, porque lhe não dou água da torneira. E quando a ensino e lhe digo tem que fazer igual aos seus meninos, vê como eles têm a barriguinha grande são bichinhos da água. Mas tudo é recebido com um rosto vazio, aceite porque sou estrangeira e estou a educar uma filha parecida aos netos dela à maneira estrangeira. São manias de estrangeiro e não necessidades de criança. Os meninos da vizinhança passam as horas aos saltos de catana na mão. Nunca são chamados para uma refeição. As meninas trabalham como crescidas e as mães sentam-se na varanda a mascar. E com os dentes vermelhos da masca falam-lhes rápido em Makasae e elas de cabelinhos emaranhados, rostinhos sujos, roupinhas quase inexistentes saltam a toque de caixa carregando irmãos ao colo pouco menores do que elas. E um dia vão fazer igual se o ciclo não for interrompido.

É preciso capacitar o afecto.
Ás vezes o amor tem que se aprender.

3 Comments:

Anonymous Anonymous said...

ao lêr estes posts fico entre o triste o indignada e o incrédula. o amor que se tem pelos filhos não é igual em todas as raças?! como é possivel alguém pensar que "está estragado dá-se à criança"? Não entendo, não consigo. Como é que uma mãe pensa primeiro em si e só depois nos filhos?

ursitazul

2/07/2007 12:17 pm  
Anonymous Céu said...

O amor tem mesmo que se aprender: não nascemos aptos a amar, só sedentos de ser amados. Amar o outro é uma aprendizagem, por vezes difícil e demorada.
Cuida bem do teu tesouro.
Beijo.

2/07/2007 12:42 pm  
Anonymous Suzanne said...

Mais um post que faz arrepiar e que dá muito para pensar! "É preciso capacitar o afecto", uma afirmação tão real e tão incompreensível para algumas pessoas! Ainda bem que há outras pessoas que passam, ensinam valores e começam novos ciclos!

2/07/2007 7:46 pm  

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